segunda-feira, 16 de março de 2009

Uma visão do autor sobre "Olga"

O culto da heroína
Jarbas Passarinho
Escritor

Com direito à sala do cinema do Palácio da Alvorada, especialmente para o presidente de República e seus convidados íntimos, e com a presença do elenco, foi exibido o filme Olga, a que a mídia tem dado espaço relevante. É uma película baseada na biografia da famosa militante comunista alemã Olga Benário, assinada pelo escritor Fernando Moraes. Autor da biografia de Assis Chateaubriand e ouço que em preparo da do senador Antônio Carlos Magalhães, o biógrafo é homem de confessadas simpatias pela esquerda. Um de seus livros anteriores à rendosa saga biográfica foi A Ilha, de saudação ardorosa ao ditador Fidel Castro. Natural, pois, que tenha tomado Olga como um exemplo do sacrifício pelo bem da causa a que se devotou.
Li o livro faz vários anos e vou citar de memória as passagens que mais me impressionaram. A primeira relata a sua bravura incomum. Desde os 15 anos pertencia à Juventude Comunista. Na clandestinidade vivia com Otto Braun, importante membro do partido. Preso pelos nazistas, Olga num lance de extrema audácia resgatou sozinha, devidamente armada, seu companheiro famoso, da prisão nazista de segurança máxima. Comunista e judia, fácil é inferir o grau de risco que correu se malsucedida, o menor dos quais seria um campo de extermínio de judeus. O partido exilou-a em Moscou em 1928. A proeza certamente a credenciou entre os quadros mais corajosos do partido. Não terá sido por acaso que o Komintern, ao encarregar Prestes de fazer a revolução de 1935 no Brasil, fê-lo acompanhar da extraordinária e possivelmente a mais brava das suas militantes.
Ao que parece, a Prestes e a Olga uniam a ideologia, e ela, por sua coragem comprovada, tinha a missão de protegê-lo, no levante que se iniciou no Nordeste com êxito no Rio Grande do Norte, mas fracassou em seguida em Pernambuco e no Rio de Janeiro. A caça a Prestes era questão de honra para o governo e dela se encarregou o capitão Filinto Müller, antigo subordinado de Prestes na coluna lendária comandada por Miguel Costa. Por toda a vida, Filinto foi odiado pelos comunistas que tentaram fazer público que Filinto era encarregado da guarda do parco dinheiro da coluna e com ela se teria bandeado ao desertar. Nunca isso foi comprovado, mas a figura do desertor atravessou o século 20, a ponto de o então presidente do Partido Comunista, Roberto Freire, ao ser eleito senador, ter recusado terminantemente ocupar o gabinete que lhe foi destinado, porque se situava na Ala Filinto Müller.
Em um dos livros que Prestes ditou, para o jornalista Dênis de Moraes, conta haver cometido um grave erro, ao revelar a um dos seus companheiros que iria mudar seu refúgio de Copacabana para o bairro do Meier. A Polícia Especial, organizada por Filinto e capaz de todas as violências, a tortura inclusive, tomou conhecimento do destino revelado e passou a vasculhar o subúrbio, rua por rua, casa por casa, até que chegou ao esconderijo do líder comunista, manhã cedo, ele ainda de pijama. ''A ordem era me matar - diz Prestes - mas quando os policiais invadiram a casa, minha companheira me abraçou, colocando o corpo dela entre eles e eu (sic), me salvando a vida''. Faz, então, a revelação do amor que já o ligara à encarregada de sua segurança. ''Vivíamos juntos como nunca vivi com ninguém. Quarenta dias, um vendo o outro a todo momento. Foi um período de grande amor''. Salvo da morte, a mesma sorte não teve Olga, então grávida, deportada para a Alemanha. Prestes adianta no livro citado: ''Nunca perdoei Getúlio por ter entregue minha companheira aos nazistas. Foi o maior crime que ele fez''.
Mas nove anos depois, solto por Getúlio, a ele juntou-se em palanque na propaganda fracassada de ''Constituinte com Getúlio''. A algo assim, Raymond Aron definiu como Du bon usage des idéologies. Hoje, nos trópicos, chamamos de pragmatismo. A história de Olga caracteriza dois lados antípodas de sua história. O presidente Getúlio, ainda não o ditador de 1937, não titubeou em mandar para a morte a mulher grávida de Prestes, judia e comunista. Já os nazistas mantiveram-na viva até nascer-lhe a filha e durante o tempo que tivesse leite para amamentá-la.
A vida de Olga enseja outra reflexão. É um ícone da esquerda. Os que não leram o livro verão a versão cinematográfica. A esquerda é mestra na propaganda. A descoberta dos campos de extermínio nazistas horrorizaram o mundo. A opinião pública sensibilizou-se com os crimes nazistas tratados na vasta literatura e no cinema, revelados no Tribunal de Nürenberg, no processo de Eichman e na Lista de Schindler, mas nada igual ocorreu com relação aos campos de extermínio soviéticos, aos Goulags magistralmente descritos por Soljenitsin e pelos dissidentes soviéticos em seus testemunhos estupefacientes.
Sem diminuir a bravura de Olga, impõe-se relacionar sua lição de vida à ideologia de que foi escrava desde os 15 anos de idade. Já se escreveu que ''o fato de alguém morrer por uma causa não significa necessariamente que a causa é boa''. Entre nós, a assimetria da narrativa histórica é patente. Há uma inflação de livros e bom número de filmes de versões dos ''anos de chumbo'' e nada das vítimas que as guerrilhas fizeram. Tudo pelo ''bem da causa''...

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